MEDITAÇÕES EM CAMINHO

pororoca Saramem Foz-38 pb

sOBRE A ARTE DO VIAJAR, mANIFESTO DO hOMEM cOMUM

e outras reflexões ainda menos nobres mas algo pertinentes sobre o contemporâneo

(EM CONSTRUÇÃO)
sOBRE A aRTE DO vIANDANTE

# A vida do mochileiro que viaja de modo simples e quer chegar longe pode ser facilitada por algumas atitudes bastante óbvias – mas que como todo óbvio é bom que seja dito e reiterado, pois no mundo contemporâneo de especialistas e espetáculos é justamente do óbvio que mais carece aquele que não se sujeita às fragmentações limitantes e estruturas rígidas.

# Viajar é um ato diferente daquele passeio do turista acomodado-sufocado entre os muros de seu conforto ou Capital; viajar, viaja o aventureiro em busca do mundo e de ver a si mesmo; viaja aquele que desafia o desconhecido e suas próprias fraquezas.

# É preciso pensar-se contra si mesmo –  contra suas próprias tradições e estruturas.

# Chegar durante o dia claro nas grandes metrópoles é fundamento para o viajante de – digamos – posses pouco abrangentes: sempre que se chega a uma cidade grande, deve-se tentar fazê-lo enquanto ainda há luz, pois assim é mais fácil e seguro caminhar com bagagem para procurar por uma hospedagem razoável (e barata) para dormir. Buscar o centro das cidades (comercial ou histórico) é sempre a opção primeira, a não ser que aquele sujeito (local e que pareceu confiável) que estava ao seu lado no trem te tenha indicado um bairro próximo). Embora os albergues (da juventude, hostels) sejam boa opção de chegada — e muitos deles hoje têm endereços, telefones e preços na internete — se o que se deseja é conhecer de fato a cidade, ter um pouco de paz de espírito para refletir e sentir o lugar (pois os albergues são ótimos para se conhecer gente, mas nem tanto para se dormir e observar), e ainda economizar para ir longe em sua viagem, o melhor que se faz é buscar um quarto barato e individual num hotel popular ou motel comum, o que quase sem exceção se poderá encontrar nos centros das cidades — basta perguntar à população local. Quanto à limpeza e higiene, vale sempre ao mochileiro viajar com seu próprio saco-de-dormir ou ao menos um lençol para os casos de emergência –  como o de se ter de dormir em uma praça pública (busque uma razoavelmente movimentada) ou um caixa-eletrônico (o que é comum na Europa, devido à lotação dos albergues, ao preço das hospedagens, ou a ambos –  havendo inclusive cabinas com excelente calefação). Em caso de emergência (frio, chuva, caixas lotados) tente ainda a prefeitura (albergues públicos municipais), onde ao menos (em geral) te deixam dormir sentado no banco de espera.

# Ao encontrar uma hospedagem, evite parecer cansado, pois os preços sobem; pergunte as tarifas, diga que procura algo simples, econômico (se estiver em dois, deixe as malas com a outra pessoa e vá sozinho informar-se sobre o local); caso não lhe agrade as condições (arejamento, limpeza, preço, visão da rua ou ao menos da luz do dia), vale sempre um agradecimento verdadeiro; olhar-se nos olhos, além de demonstrar sinceridade, é passo ao conhecimento dos Homens, e por conseguinte do lugar que se está a observar.

# Quase sempre se pode encontrar restaurantes populares para garantir aquela refeição completa no início da tarde (e que geralmente é a única do dia) — exceto em lugares onde a carestia faz difícil a vida do andarilho, e neste caso a saída são os mercados (por exemplo pão, queijo, verdura e vinho — mesma receita para os lanches  noturnos). De toda maneira, no dia-a-dia o mais recomendável é ter-se a disciplina de ir aos mercados municipais ou supermercados durante o dia e observar os artigos mais cotidianos da culinária local; assim se aprenderá no México a comer abacate salgado temperado e com pedaços de queijo (guacamole), ou mesmo iogurte temperado a acompanhar saladas de grãos e carne picada, como na Grécia, ou macarrão com lentilha e arroz ao molho de tomate picante com ou sem carne do Egito (kochari), e a esverdeada e macia injira, panqueca etíope de tef (“cereal do amor”, típico da região) que acompanha toda ceia, com legumes ou frango  — enfim, os pratos que são o “arroz e feijão” de cada lugar. Vale provar também, na medida das condições materiais do viajante (contabilizando-se a distância a ser ainda viajada), as iguarias específicas regionais — que costumam ter ótimo custo-benefício (p. ex. o chique queijo “brie” francês que em São Paulo se vende como “gourmet” a 20  reais o pedacinho, custa 1,50 euros em supermercados na França).

# Viajar, viaja-se só; viajar com alguém não permite viajar inteiro, abrir-se aos conhecimentos, personagens, detalhes — estar com os seus, entre os seus, na segurança dos seus, é meio como estar em casa. Caso em casal, em situação inadiável, interessante provar  o silêncio periódico e prolongado por alguns dias: a comunicação mínima, a solidão criativa que permite a aproximação de seus próprios pensamentos. Solidão, inclui não só afastar-se dos conhecidos fisicamente, mas psiquicamente — e portanto abarca esquecer contatos, cartas, emeils, mensagens, e até mesmo notícias de jornal que tantas vezes remetem nosso processo psíquico para temas vulgares. É certo que se informar é preciso, mas não diariamente; e noticiários, além de informarem pouco, informam desviado e se repetem, notas em sua quase totalidade pautadas pelas agências centrais de formação ideológica internacional.

# Evitar noticiários (jornais, tevês, redes sociais, etc) por alguns dias ou semanas é fundamental para a saúde mental: como se sabe, menos de meia dúzia de agências comerciais comandam as livres manchetes liberais de quase a totalidade da grande mídia do mundo dito ocidental, assim como mais algumas poucas empresas (google, facebook, etc) são quem decide livremente o que o cidadão comum lê diariamente em sua rede social ou na sua “pesquisa” na internete como um todo; tais empresas ditas a livre-imprensa são organismos comerciais (não educacionais, nem criativos e muito menos democráticos), de forma que se pode imaginar a quem é vantajoso o modo como fabricam suas salsichas informativas. Estas corporações visam o lucro (como é natural em um sistema de liberdades abstratas ou apenas “jurídicas”), e mais que o lucro, a manutenção e o aumento do lucro — e portanto sua informação, longe de ser formação, é restrição e visa a conservação; comandam as mentes gerais: Associated Press/EUA, Reuters, As. France Press, EFE/Esp e mais alguns oligopólios plutocráticos de cunho regional — tal qual Globo, Estadão, Falha de São Paulo e a revista Veja; note-se, entretanto, que esta revista do decadente grupo Abril, sendo hoje em dia declaradamente fascista em diversos aspectos, além de conservadora ao extremo nos aspectos restantes, tem posições que em geral são evitadas pelos autênticos liberais (liberais não só econômicos, mas culturais); e mesmo dentre a ala liberal-conservadora, legalista-no-limite (delinquentes financeiros, especuladores, e demais parasitas que vivem da seiva social produtiva), é bastante comum sua recusa temporária por panfletos xenófobos como a mencionada Veja; isto vai no mesmo sentido do democrático apreço dos aristocratas da informação pela livre-opinião — livre-opinião que quando deixa de ser a livre-opinião apenas deles mesmos, tem seus breves limites bruscamente reduzidos. Como é amplamente sabido, a livre-opinião de um jornal não perpassa a “livre-opinião” do editor-chefe da redação (bem o descreve o genial Lima Barreto). Veja-se, por exemplo, como é nítido o recesso da “liberdade de imprensa”, e do direito ao voto-analfabeto chamado hoje “democracia”, em época de crises econômicas e efervescência popular. Como disse alguém de olhos abertos, os liberais “preferem” a democracia ao fascismo — preferem… Assim, parece que  nada têm a lamentar os bons e éticos jornalistas, trabalhadores da imprensa suja, quando são demitidos em massa e sem direitos laborais por cortes de gastos de suas empresas de salsichas midiáticas: — pois não foram eles mesmos que contribuíram (com seus excelentes textos e reportagens) à consolidação destes meios antidemocráticos e anti-humanos? .

# O segredo para se ler bons livros, é antes de tudo não se perder tempo com livros ruins : por precaução, evite mesmo os clássicos de menos de 50 ou 100 anos (e acima de tudo, abomine ler algo mais que “manchetes” em jornais ou revistas pops). É certo que um clássico secular renomado é sempre mais seguro de se ler do que um jovem autor pouco conhecido (a menos que seja seu camarada, pois neste caso a leitura no mínimo te aportará muito mais do que está escrito). Porém, viajante sagaz, tenha este lema como lei (regra que decerto deve ter exceção, ainda que eu nunca tenha tido a felicidade de encontrá-la): jamais leia um autor que esteja no topo da publicidade, recomendado pela grande imprensa, televisão ou outro meios de difusão da ignorância e coerção social. Evite deslizes: a vida é curta; e as más leituras sugam energia vital ao que busca. Prefira a profundidade dos clássicos – e certamente são tantos que ainda não lemos e não leremos nunca: eles não o farão perder o precioso tempo da sua breve vida; se não os apreciarmos, ao menos não nos tornaremos mais estúpidos depois deles. Como exemplo: ao invés de se ater a um resumo da “Arte da Guerra” de Sun Tzu, salpicada com trechos das “Mil e uma noites” (como se vê na narrativa simplória de “O Alquimista“), por que não ler os originais?  Note-se que não se quer aqui diminuir ainda mais o valor dessa citada adaptação juvenil, pois, primeiramente é fato que há adolescentes para lê-la – e mesmo, não se pode deixar de perceber que imensa parcela da população contemporânea adulta pensa como adolescente; e além disso, foi apenas depois de seu sucesso (ao menos de vendas) que os editores comerciais puseram o Sun Tzu (original) nas bancas a preços populares.

# A água é fator importantíssimo – e caro ao viajante de longo percurso, se tomada em quantidade adequada. Evite favorecer a privatização da água, tomando água engarrafada mineral indiscriminadamente. Compra de água “industrial”, além de consistir em tráfico criminoso de um líquido vital, ainda contribui para se ter um organismo fragilizado, sem anticorpos ou defesas, o qual poderá ser afetado por qualquer arroz ou macarrão cozido em água local. É muito comum observar-se desarranjos entre os viajantes hipersensíveis à realidade de modo geral (europeus, estadunidenses, israelitas, paulistanos dos Jardins/ Vila Madalena, apenas para citar exemplos clássicos que constam na literatura especializada). A tradição iluminista (positivista) da assepsia em nível patológico debilita gravemente a saúde. O recomendável, no caso de qualquer cidade ou vila, é sempre se perguntar ao povo local qual água eles bebem no cotidiano e segui-los nesta prática – acostumando pouco a pouco o organismo a cada situação ou flora bacteriana ; no início vale ferve-la, ou se possível filtrá-la, ou ainda usar gotas de cloro. Muitas cidades têm bebedouros ou fontes públicas, facilmente localizáveis pelo viandante atento. Saúde por si só está longe de ser felicidade, mas é passo fundamental a ela.

REFLEXÕES SOBRE O HOMEM COMUM

(em construção)

2 comentários sobre “MEDITAÇÕES EM CAMINHO

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